A coca que virou cola e matou Gabriel
Ele chegou com três papelotes de cocaína. Abriu-os sobre a mesinha de centro, com tampa de vidro, fez quatro carreirinhas e aspirou uma a uma.
Carlito só olhava, em silêncio. Seu filho Gabriel tinha mergulhado no mundo das drogas aos 13 anos. Estava com 26 e continuava nele, se afundando cada vez mais.
No dia anterior, tinha sangrado a veia na sua frente, para injetar uma dose da branquinha.
Duas semanas antes, com medo que Gabriel se matasse, de tanto fissurado que estava, Carlito o tinha levado até um ponto da pesada, ao pé de de um morro carioca.
Mas, e se a polícia chegar, de repente? – ele perguntou ao filho.
- Não chega. O dono é um delegado – respondeu Gabriel, sem qualquer constrangimento.
Carlito não se conformava com o vício do filho. Mas sabia uma das razões por que ele tinha enveredado por esse caminho. Esteve ausente da educação de Gabriel quando ele mais precisava: na passagem da infância para a adolescência.
E, agora, na sala de seu apartamento, presenciava, mais uma vez, a cena que se repetia em seus pesadelos.
Não sabia mais o que fazer. Tinha internado o jovem quatro vezes em clínicas diferentes. Mas, depois do período de desintoxicação, ele reiniciava sua jornada para o inferno.
Terminada a sessão de cocaína, Gabriel, com aquela expressão de cinismo misturado com arrependimento, que caracteriza o adicto, olhou para o pai, esboçou um sorriso de canto de boca e saiu.
Carlito só foi ter notícias do filho três meses depois. Foi através de um telefonema do IML de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
- Seu Carlito? Carlito de Freitas de Lima? O senhor tem um filho de nome Gabriel?
- Sim, sim – balbuciou Carlito, já sufocado pela dor da alma e pelas lágrimas que corriam por seu rosto.
- Por favor, venha reconhcer o corpo, para podermos liberá-lo para o enterro.
Em meia hora, Carlito chegou ao IML.
- É… é ele – confirmou ao funcionário de plantão, que, secamente, entregou-lhe um pedaço de papel.
- Foi a única coisa que encontramos nos bolsos dele – disse o rapaz.
Com as mãos trêmulas, Carlito leu:
“Pai, estou bem melhor. Consegui largar a cocaína e o crack. Agora, estou só cheirando cola. Em breve estarei de volta.”
Conto de João S Magalhães. Todos os direitos reservados.
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Conto muito bacana cara!