A garota de Ipanema que é cientista da Nasa
Este artigo foi publicado no Repórter Net faz algum tempo. Mas o link foi perdido, quando mudei de servidor de hospedagem.
Como é bom saber que uma brasileira ocupa alto cargo na agência aeroespacial americana (Nasa, na sigla em inglês) resolvi reeditá-lo.
A matéria é extensa porque inclui uma entrevista feita por e-mail.
Ela nasceu em 1957, no então reduto da boemia carioca: o Bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, eternizado numa canção de Antônio Carlos Jobim e VinÃcius de Moraes. Menina ainda, com quatro anos de idade, ficava grudada na televisão, à cata de tudo o que se relacionasse aos mistérios do universo.
Certa vez, quando assistia a um noticiário sobre o astronauta russo Iuri Gagarin, seu pai perguntou-lhe se desejava ser como ele. Sim, ela queria. De certa forma, realizou seu sonho. Não como astronauta porque sua miopia impediu mas como a dra. Rosaly Lopes-Gautier, astrônoma da Nasa.
Sua trajetória acadêmica e profissional foi brilhante. Aos 18 anos, incentivada pela famÃlia, foi estudar astronomia na Universidade de Londres. Graduou-se em 1978 e a partir daà dedicou-se intensamente à geologia planetária e vulcanologia. Sua tese de doutorado, aprovada com louvor, comparava o comportamento de vulcões de Marte e da Terra.
CurrÃculo invejável
Com todo seu talento, não foi difÃcil arrumar emprego. Aos 28 anos, assumiu a chefia da seção de Astronomia do Observatório de Greenwich. Curiosa, indócil e ambiciosa, deixou a Inglaterra em 1989, para juntar-se à equipe italiana que, arriscando a vida, fazia o mapeamento do vulcão Vesúvio. Esteve na cratera deste e de outros vulcões como o Etna, na SicÃlia, e Kilauea, no Havai.
Em 1989, o JPL – Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, na Califórnia, estava recrutando jovens cientistas para atuar como pesquisadores residentes. Ela apresentou-se e, por seu invejável currÃculo, ficou com a vaga.
Não demorou muito para tornar-se a coordenadora do NIMS, instrumento que, a bordo da nave Galileu, realiza a cartografia do planeta Júpiter, em especial da lua Io e de seus vulcões.
“Io tem cerca de 100 vulcões em plena atividade. Eles cospem aos céus jatos de lava com mais de 400 quilômetros de altura. São jorros tão espetaculares que podem ser vistos por telescópios instalados na Terra, a 630 milhões de quilômetros de distância”, descreveu, deslumbrada, num chat promovido pelo site As Mulheres da Nasa.
A propósito de Io, ela sugeriu à IAU – União Internacional de Astronomia, órgão encarregado de nomear os acidentes geográficos de outros planetas, que batizasse dois dos vulcões dessa lua de Júpiter, com os nomes de Tupan e Monan, deuses da mitologia indÃgena brasileira.
Homenagem a Tom Jobim
E, numa homenagem aos seus dias de garota de Ipanema, sugeriu também que se a nave Messenger encontrar vulcões em Mercúrio, quando passar por lá, neste ano de 2009, seja dado a um deles o nome de Tom Jobim.
Por suas atividades educacionais junto ao público de paÃses hispânicos e da América Latina, recebeu, em 1991, um prêmio outorgado pelo governo mexicano e, em 1997, foi eleita por uma rede latina de televisão de Miami, a mulher do ano, na área de ciência e tecnologia.
Atualmente, aos 52 anos, a dra. Rosaly vive numa bela casa em Pasadena com o filho, Thomas Nicholas. Nas horas vagas, lê e toma aulas de aviação. Embora quase não lhe sobre tempo, ela concordou em conceder-me uma entrevista.
Por que a senhora se interessou em estudar Astronomia?
Lembro-me, quando criança, lá pelos quatro anos de idade, de Yuri Gagarin indo ao espaço e de meu pai me perguntando se eu queria ir junto com ele. Disse que sim (tinha 4 anos) e depois disso passei a me interessar ainda mais pelos programas espaciais. Meu sonho era ser astronauta, mas era muito mÃope, então decidi que seria astrônoma e iria trabalhar para a Nasa.
Como foi seu ingresso na Nasa? A senhora encontrou alguma dificuldade inicial pelo fato de ser mulher?
Estudei na Inglaterrra e depois do meu doutorado, vim para o Laboratório de Propulsão a Jato. Não encontrei dificuldade alguma. A Nasa empenha-se em promover as mulheres talentosas. É claro que as vezes eu encontro pessoas com preconceitos, mas é raro, e aqui discriminação dá demissão. Então, todos tomam muito cuidado no trato com as mulheres e as minorias.
Os objetos de suas pesquisas são os vulcões. Mas por que estudar os vulcões de outros planetas?
Estudamos os processos vulcânicos servindo-nos de outros planetas como laboratórios naturais para melhor entender os processos geológicos aqui na Terra. Por exemplo, descobrimos que os vulcões em Io, uma lua de Júpiter, têm lavas quentÃssimas, do tipo que existiu na Terra há bilhões de anos atrás. Hoje vemos erupções dessas lavas em Io e assim podemos entender melhor como elas ocorreram na nossa pré-História.
Qual foi a sua maior descoberta nesse campo?
Quando a nave Galileu chegou a Júpiter, imaginávamos que Io tinha vulcões ativos, mas achávamos que eram apenas doze. Pensei que, com muita sorte, iria descobrir mais algum. Na primeira observação, descobri seis. E, até agora, mais de cinquenta.
Quem dá nome aos vulcões que vem sendo descobertos? Consta que a senhora prestou homenagem ao Antônio Carlos Jobim, batizando um dos vulcões de Io com o nome dele.
Não é verdade. O que aconteceu foi o seguinte. Por convenção da IAU – União Internacional de Astronomia, os acidentes geográficos encontrados em outros planetas recebem nomes de deuses, de artistas famosos, de celebridades do mundo cientÃfico.
Os de Io, por exemplo, recebem nomes de deuses do trovão, do fogo. Os de Mercúrio serão batizados com nomes de músicos, de artistas famosos. Então, eu sugeri que uma cratera ou um vulcão que fossem descobertos em Mercúrio, quando a nave Messenger chegar lá, por volta de 2009, recebesse o nome do Tom Jobim. Afinal, sou uma garota de Ipanema e isso me deixaria muito orgulhosa. Sugeri também à IAU – e ela aceitou – nomes para dois vulcões em Io: Tupan e Monan, que pertencem à mitologia indÃgena brasileira.
Se pudesse fazer uma viagem espacial que planeta gostaria de visitar?
Sem dúvida, Io, minha lua especial. Sou especialista em vulcões, então Io seria meu paraÃso. O problema é que a dose de radiação lá é tremenda e ninguém sobreviveria a ela.
A senhora acredita na existência de vida extraterrestre semelhante à nossa?
Nao acredito nem desacredito. Nao sei. Não temos provas. Estamos procurando por vida extraterrestre, mas ainda não encontramos nada. Seria a maior descoberta da era espacial. Então, espero que aconteça.
O que mais ama em seu trabalho?
O aspecto da exploração de lugares desconhecidos. Se tivesse vivido em tempos antigos, talvez fosse explorar o Brasil ou a África. Agora estou trabalhando na missao Cassini, que esta indo a Saturno. A maior lua de Saturno, Titã, é coberta de nuvens e Estou trabalhando com um instrumento de radar que vai poder ver a superficie dela. Não sabemos o que vamos encontrar lá, e isto é muito emocionante para mim. Imagine só ser uma das primeiras pessoas a ver a superfice de uma lua tão distante.
Qual foi o melhor momento de sua carreira?
Já tive muitos momentos especiais e espero que eles se multipliquem. É dificil escolher um. Adoro estar com o público e dar palestras. Adorei fazer programas para o Discovery Channel. O que me emociona mais é saber que as pessoas que não são cientistas se interessam pelo meu trabalho. Um momento muito especial para mim foi quando dei uma palestra no ano passado para o público leigo aqui no JPL, à qual meu filho assistiu. Depois da palestra ele me disse: “Mamãe, eu não imaginava que você sabia tantas coisas!”.
E o pior?
Foi quando estava terminando meu doutorado por volta de 1984. Isto porque os fundos disponÃveis para pesquisas na Inglaterra tinham sido reduzidos drasticamente. Então, fui ensinar matemática para adolescentes. Mas eu detestava fazer isso. Deixei o emprego e fiquei algum tempo sem qualquer perspectiva até que surgiram duas oportunidades de trabalho: a primeira, no Observatório de Greeenwich e, depois, na Nasa.
Como os pesquisadores envolvidos em missões espaciais utilizam a Internet?
Todo tempo. Fazemos muito trabalho pela internet, principalmente no planejamento de missões e de campanhas de observações nessas missões. Recebo por volta de 50 mensagens por dia, e estou no computador quase o tempo inteiro.
E como a senhora, particularmente, usa a internet?
Na maior parte do tempo em pesquisas (e aqui não estou falando do planejamento de missões, que é grande parte do meu trabalho). Uso muito o e-mail para me corresponder com meus colegas, para procurar artigos (em vez de ir para a biblioteca), e para mandar meus trabalhos para as revistas cientificas.
Seus sites favoritos…
Ebay, Google, Amazon.com. Compro livros na Amazon, compro muitas coisas na Ebay, para casa e para minha coleção de coisas de vulcões (pinturas, fotos, livros antigos). Mas, na maior parte do tempo, não uso o computador para lazer. Em casa, gosto mesmo é de ler.
O que significou para a senhora receber o o tÃtulo de Mulher do Ano na área de Ciência e Tecnologia, em 1997, concedido por uma rede latina de Televisão de Miami?
Gostei muito de receber esse prêmio porque tinha certeza que significaria muito para as garotas latinas. É importante dar um exemplo do que uma mulher pode fazer. A cultura latina não dá força à s mulheres que querem ser cientistas. Eu tive muita sorte de ter o apoio de minha famÃlia.
Obviamente, a senhora sente saudades do Brasil. Algum dia voltaria a morar no Rio?
É claro que sinto saudades. Adoro a nossa alegria – não existe nada igual no mundo. Tento ir uma vez por ano aÃ. Mas voltar a morar no Rio, não sei. Depende muito do que meu filho quiser fazer.
Cite eu livro preferido, filme, esporte…
O livro que me inspirou mais foi O Universo, do Isaac Asimov. O filme foi 2001, uma Odisséia no Espaço. Meu esporte favorito agora é a aviação. Em breve terminarei o treinamento e tirarei o brevê de piloto.
Fale-me dos heróis de sua vida.
Minha avó, Hilda (já falecida), que se formou professora num tempo em que poucas mulheres tinham profissão ou estudavam. A irmã dela, Silvia, que se formou em enfermagem, estudou nos Estados Unidos e, quando voltou, tornou-se diretora de uma escola de enfermagem no Rio.
E a mãe delas, Luisa, que, de acordo com a familia, foi a primeira mulher no Brasil a terminar a escola secundária. Ela tinha um livro autografado pelo Imperador Pedro II.
Depois que o marido faleceu, ela ficou com muitas dificuldades financeiras, mas insistiu que todos os filhos (e filhas) estudassem. Dizia: “Meus filhos podem morrer de fome, mas não vão morrer ignorantes”. Tive sorte de ter mulheres tão dinâmicas e corajosas como exemplo.
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Naturalmente Linda e inteligente. Espero que seja um modelo para as proximas garotas de Ipanema, as atuais são artificialmente lindas e burras!