Das Dores tinha um sonho
O nome do meu Blog é Repórter Net. E daí? Daí que ele tinha de ser o repórter da grande rede. E é, em parte. Mas não é, no todo.
É, na realidade, uma revista online que tem de tudo um pouco. Razão pela qual resolvi publicar nele, aos poucos, minha pequena obra literária, sob o título Conto um conto e faço versos.
O primeiro post da série foi o conto O menino que via sacis. Percebi que quase ninguém o leu. Pouco importa.
Minha meta é ser lembrado, ainda que na rabeira de resultados de buscas do Google, pelos que virão amanhã, depois que eu for morar de novo ao lado de meu filho Marcelo, em outra dimensão do universo.
Feito esse preâmbulo, vamos à próxima atração. Um novo conto. Se tiver paciência, leia. Caso contrário, diga que leu, mas vote nele nos agregadores de notícia.
Das Dores tinha um sonho
Conto de João Magalhaes
O homem devia pesar mais de 100 quilos. Mas Das Dores estava acostumada. Só virou a cabeça para o lado porque ele queria beijá-la. “Beijo na boca, só por amor”, ela pensou.
Enquanto dava prazer ao seu terceiro cliente do dia, Das Dores sonhava. Via-se sob a luz dos holofotes, cantando. Era o que mais queria na vida.
Mas, pobre de marré, marré, marré decê, foi parar num prostíbulo, não tinha nem onze anos ainda.
O gorducho suava, arfava e, de repente, deu um grito.Tudo estava consumado. Das Dores correu para o banheiro para lavar-se, antes que a nova leva de espermatozóides fosse ao encontro de seu óvulo.
Ao voltar, o freguês ainda estava no quarto.
- Eu me chamo Anacleto – ele se apresentou.
Das Dores não respondeu. Não tinha nome para devolver o cumprimento. Afinal, era uma puta.
- Gostei de você, se quiser, me telefone – insistiu o homem, entregando a Das Dores seu cartão de visita.
A jovem tinha apenas dez minutos de descanso. A fila na sala de espera do puteiro aumentara e duas garotas tinham dado o cano, de modo que Das Dores era obrigada a quebrar o galho da cafetina.
Curiosa, ela deu uma olhada no cartão de visita. Anacleto Barbosa da Silva, empresário artístico.
Das Dores sentiu um arrepio no corpo. Será que Deus ouviu suas preces?
Quando saiu do trabalho, com apenas 5% do que a cafetinha tinha faturado nesse dia, Das Dores foi direto a um orelhão.
- Alô, falou uma voz metálica do outro lado da linha.
- Eu sou a moça com quem o senhor esteve hoje à tarde, na casa da madame Nina.
- Sim…
- O senhor disse que se eu precisasse de alguma coisa era só lhe telefonar.
- Então, venha ao meu apartamento.
Das Dores anotou o endereço e pegou um ônibus para o seu destino.
Já na sala de Anacleto, ela revelou seu sonho.
- Tudo bem, vou lhe dar uma chance – ele anunciou.
Instintivamente, Das Dores correu até ele e abraçou-o num gesto de agradecimento. Anacleto apertou-a contra o peito, com a força de um touro. Das Dores ficou com medo e quis se desvencilhar dele.
Anacleto deu-lhe um tapa na cara e jogou-a no chão. A última coisa que ela viu, antes que a faca sangrasse seu peito, foi um recorte de jornal, colado na parede, com a manchete: “Polícia não tem pistas do serial killer de prostitutas”.
Das Dores tinha um sonho.










João,
A violência sobre quem pratica a prostituição é imensa,é uma actividade muito perigosa,onde os mais desequilibrados descarregam as suas raivas e ódios de forma cobarde,começando pelo próprio acto de procurar sexo assim…
Mas mesmo andando nesta vida de rua ou prostíbulo,o sonho não abandona o espírito,lembro-me de ver uma destas mulheres um dia falar disso,que a maioria tem esse romantismo de querer encontrar alguém especial.
O conto é muito agradável de ler amigo,gostei dele,foi um momento bom em companhia da sua escrita contista.
Abraço amigo,
joao
Mais um belo conto escrito de uma forma agradável de ler e compreender. E sobre a quantidade de leitores, vale lembrar que a quantidade na maioria das vezes não é qualidade. haja vista, “Mc” não sei o que… “Dança do Créu” e por aí vai. Vendem milhares de discos e lotam shows. Uma quantidade que em minha opinião vai de encontro a qualidade…
Grande abraço e parabéns pelo excelente texto!
Olá, gande amigo Rodrigo
Mais uma vez você me faz feliz com seus comentários positivos. E o que você diz é verdade. Lembro Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Abraços