Guerra na alma
Mais uma produção literária que está guardada no baú de lembranças de um aventureiro que se perdeu na encruzilhada da vida.
Guerra na alma
Conto de João Magalhães
Lá estavam eles, em nosso âmago, fente a frente.
O Ódio, como sempre, bastante exaltado.
- Comigo não tem conversa. Fez algo de que não gosto, terá um castigo cruel. Vou perseguir o maldito até o inferno.
O Orgulho, de queixo empinado, replicou:
- Você pode agir assim com algum trouxa, mas comigo é diferente. Estou pouco me lixando para você. E não esqueça que quem destronou esse cara aí com jeito de santinho fui eu.
- Você? Fui eu, seu desgraçado. E tem mais: sai já daqui, caso contrário não vou sossegar enquanto não te fizer em pedaços.
O Medo, trêmulo, implorou:
- Parem, por favor. Estou me sentindo mal.
O Ódio respondeu-lhe, com desprezo:
- Você só está aqui porque eu deixei. Vá se lamentar em outras plagas.
A Vaidade entrou no conflito:
- Vocês todos podem se matar uns aos outros. Como diz uma música que ouvi por aí, vocês passam e eu acho graça. Estou acima desse bate-boca de periferia.
O Ódio ficou furioso.
- Sua filha da mãe! Vem me enfrentar, se tens coragem.
O Orgulho atiçou:
- E aí, minha amiga Vaidade, vais ficar quieta, enquanto esse troglodita te humilha?
A Vaidade deu de ombros, refez a maquiagem e resolveu ir para casa, na aconchegante parte posterior do cérebro.
No meio do caminho, uma bactéria, infinitamente pequena, penetrou em suas entranhas e lá foi ela, aos trambolhos, até chegar ao intestino grosso e daí ser lançada para fora, exalando um mau cheiro insuportável.
O Ódio caiu na risada. O Orgulho ficou transtornado. O Ódio, mais um vez, detonou.
- Agora somos só nós quatro. Eu, você, esse borra-botas do Medo e esse palhaço que não abre a boca pra nada. Vou ferrar vocês três, começando por você, Orgulho.
O Orgulho não se conteve e deu um murro no Ódio. Os dois rolaram pelo corpo inteiro até perto do coração. O Ódio arregalou os olhos e gritou.
- Não, aqui, não!
Tarde demais. Enroscou-se no vai-e-vem dos ventrículos e infartou. O Orgulho, por sua vez, cambaleando, entrou na corrente sanguínea, de onde não conseguiu sair mais – um suplício subir e descer, sem perspectiva de escape.
O Medo, apavorado, se esgueirou de fininho pelo sistema respiratório e ficou escondido no peito.
O quarto personagem assistia a tudo serenamente.
Ele sabia de antemão que seria o único sobrevivente daquela contenda interior porque tinha um poder extraordinário, a ele conferido por um grande mestre, conhecido, lá fora, pelo nome de Deus.
Com um gesto suave, ele, o Amor, se ergueu e reassumiu o seu posto de supremo comandante da alma.










Insano… me arrancou lágrimas… MUITO BOM…
Olá, Pyrographer
Mais uma vez, obrigado por vir aqui e fazer um comentário curto, mas estimulante.
Grande abraço
É um belo conto João!
Reflexivo e claro, parabéns!
Excelente, João!
Seus textos nos fazem viajar nos personagens, sejam eles quais forem.
Abração
Olá, Teka
Nada mais além de muito obrigado por você ter lido e gostado. Venha mais vezes aqui,
Abraços
Olá, Rodrigo
Acho que não são criações minhas, mas, de meu filho Marcelo, que se foi tão cedo, como você sabe.
Você me é muito querido, Rodrigo. Não te conheço pessoalmente, mas tenho certeza de que se trata de belo caráter. Além, é claro, de um blogueiro de primeira.
Abraço fraternal