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Os jornalistas policiais e a polícia jornalística

Transrição literal de um texto do brilhante jornalista Carlos Brickman, meu ex-companheiro de Jornal da Tarde, nos idos de 1967, publicado peloObservatório da Imprensa.

“Este colunista é do tempo em que Esperidião Amin tinha cabelo, Lula usava bigodão preto (sem barba), José Sarney também tinha bigodão preto (sem tinta), Paulo Maluf era inimigo do PT e Romero Jucá era líder do Governo(qualquer governo).

Dizia-se que, se o Partido Comunista tomasse o poder, não se sabia quem seria o presidente. Mas o primeiro-ministro seria Marco Maciel.

Naqueles velhos tempos, a ditadura justificava as medidas de exceção e o desrespeito aos direitos humanos pela necessidade de combater a corrupção.

Jornalistas “amigos dos hômi” (que vergonha!) assistiam a interrogatórios e ganhavam notícias exclusivas. E faziam piada com o centro de horrores do regime, o DOI-Codi, chamando-o de “Tutóia Hilton” – pois ficava na rua Tutóia, em São Paulo.

Mudou – mas nem tanto. Os presos mais conhecidos não são torturados, mas achincalhados, humilhados, sem necessidade de esperar a condenação.

Emissoras escolhidas são chamadas para participar do espetáculo público em que se transformaram as ordens de prisão. Jornalistas “amigos dos hômi” (que vergonha!) assistem a interrogatórios e ganham notícias exclusivas.

E fazem piada com o cárcere, chamando-o de “hospedaria da PF” e “PF Inn”. É um pouco melhor do que antes. Mas o comportamento só varia de grau, sem mudar na essência.

Há dois aspectos que não podem ser esquecidos quando alguém vai preso:

1 – A prisão de um ser humano, por mais que ele a mereça, por mais que seja necessária para a sociedade, é sempre uma tragédia;

2 – É preferível deixar escapar um culpado a punir um inocente.

O resto é ditadura.

Coisa feia

A propósito, quem reúne informações para levá-las à Polícia ou ao Ministério Público, como proclamam orgulhosamente alguns cavalheiros que se consideram jornalistas, não é repórter, não é jornalista. É “X 9″, “ganso”, “informante”, “alcaguete”, “cagueta”, “dedo-duro”. Jornalista publica suas informações e as entrega ao leitor, espectador, ouvinte, internauta.

Ministério Público e Polícia fazem parte deste público e, junto com ele, tomarão conhecimento da notícia.

Tomar o partido dos adversários do Ministério Público e da Polícia também não é jornalismo; e quem o faz jornalista não é. Até que consegue uma façanha: transformar os opostos em sinônimos.

Tanto faz se é conhecido como “comprado” ou “vendido”. Pode ser “subornado”, “apaniguado”, “mão peluda”.

Repórter, convenhamos, é outra coisa. Jornalista só tem um compromisso: com seu público. Pode errar, mas sempre acreditando que o que diz é a verdade.

Dúvida cruel

No momento das prisões, bem no início da manhã, havia jornalistas, câmeras, motoristas de reportagem, todos nos lugares certos, prontos para trabalhar.

Ali Kamel, o ótimo chefe do Jornalismo da Globo, normalmente lógico e articulado, jura que ninguém avisou sua emissora: ela estava lá porque tinha de estar lá.

Digamos, alguém acordou bem cedinho, lá pelas quatro da manhã, e pensou algo assim: “Ah, já que eu estou acordado, deixa dar um pulinho na casa do Naji Nahas, com a equipe inteira, para ver se não há alguma novidade”.

É mais ou menos como o repórter que, de uma hora para outra, diz que estava lendo o “Diário Oficial” e descobriu algo importante.

É verdade: ele só esqueceu de dizer que foi ler o “Diário Oficial” naquele dia, naquela página, naquela coluna, porque alguém lhe contou o que havia ali de interessante.

Claro, alguém foi avisado. E surge a dúvida jurídica: no momento em que se convoca a reportagem (mesmo que seja de uma empresa só, como foi o caso) para cobrir algumas prisões, não está havendo vazamento de uma operação altamente secreta?

Pior: como na brilhante frase (provavelmente de Sérgio Porto), “ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Se é para avisar, faltou chamar Record, Bandeirantes, SBT, Estado, Folha, agências noticiosas e tantos outros.

Há uma irregularidade que deve ser investigada. Tudo bem, sabemos que a punição de quem agiu irregularmente não ultrapassa ficar dois dias sem sobremesa, mas seria interessante saber que pelo menos alguma coisa aconteceu”.

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