Sou alcoólatra, mas não bebo
Estou na casa dos sessenta, bem perto de dobrar o Cabo da Boa Esperança. Por isso, resolvi abrir meu anonimato de uma vez por todas e resumir a minha trajetória no inferno do alcoolismo e como escapei dele.
Acredito que a iniciativa poderá ajudar aqueles que estão na ativa e suas famÃlias. O álcool, se você não sabe, mata mais que o fumo e infartos.
Por isso, deve ser combatido a todo custo e não incentivado por comerciais, pela guerra das cervejas, que exibe mulheres bonitas tomando umas e outras ou, então, propalando que a bebida desce redondo.
Tudo bem, tem gente que pode beber, pode até tomar um porre, sem problemas. Mas há pessoas, em especial os jovens, que, por propensão, ao tomar uma, podem se tornar alcoólatras. E aÃ, o bicho pega.
Entrei no inferno do alcoolismo aos 24 anos e saà dele aos 36. Mas ainda sou alcoólatra. Só que não bebo. Dá para entender?
Explico: alcoolismo é uma doença, progressiva e incurável. Isso significa que um alcoólatra como eu, pode ficar sóbrio, há meios para isso.
Mas se tomar de novo o primeiro gole, a vaca vai para o brejo: ou eu morro em pouco tempo – o que é mais provável – ou fico louco.
Feito esse preâmbulo, eis o meu depoimento.
De volta à vida
“Tomei meu último gole na tarde de 6 de abril de 1976, à porta de uma clÃnica psiquiátrica, no Rio de Janeiro, onde, pouco depois, fui internado pelo Bira, membro de Alcoólicos Anônimos(AA).
O incrÃvel é que eu havia estado em AA um dia antes, sem saber como. E, até hoje, não lembro de como cheguei lá e o que aconteceu. Só sei que, pouco antes de me encontrar com o Bira, na manhã daquele mesmo dia 6, estava, como sempre, desesperado para beber.
Revirei os bolsos da calça e encontrei uns trocados. Assustei-me, pois tinha certeza de estar sem dinheiro. ‘Será que roubei?’ O susto passou rápido. O fundamental, nesses momentos, era que, tendo dinheiro, podia beber.
E bebi. Mas não foi o suficiente. Queria mais. E vasculhei meus bolsos de novo. Achei um pedacinho de papel. Nele estavam o nome e o telefone do Bira, as iniciais AA, e um lembrete: ‘Se precisar de ajuda, nos chame’.
Eu precisava. Para beber. Pois só bebendo pararia de tremer. Só bebendo, poderia respirar aliviado, e, em seguida, beber mais e mais, até me desligar das coisas do mundo.
Foi, então, que telefonei para o Bira. Ele também tinha estado na mesma reunião de AA que eu e após a qual – contaram-me mais tarde – apaguei. O Bira tentou levar-me para casa dele, mas, no meio do caminho, acordei e fugi.
Maravilhas do AA
Fui parar de novo na mesma beira de calçada que vinha freqüentando nos últimos quatro meses. Lá, apaguei de novo. Até o Bira chegar, me acudir, e me convencer de que deveria ir para uma clÃnica: eu estava inchado, fraco, maltrapilho e maltratado.
Fiquei na clÃnica mais ou menos um mês. Ao sair, descobri AA e pude verificar as maravilhas que falavam dessa irmandade que, há mais de meio século, se dedica à recuperação de alcoólatras. De lá para cá não bebi mais. Estou sóbrio.
Mas ainda sou alcoólatra. Isso mesmo: sou alcoólatra, pois, como aprendi em AA, alcoolismo é uma doença progressiva, que pode ser detida, mas é incurável.
Basta um gole de qualquer poção que contenha álcool e recomeça todo o processo de dependência psÃquica e fÃsica pela qual passei, incluindo aà a degradação moral.
Isso não significa que quem tem problemas com o álcool há de, necessariamente, perder o emprego, a famÃlia, ser preso, internado e ter alucinações — ver bichos, como aconteceu comigo.
Muitos, atualmente, têm tido a sorte de ser tratados a tempo. Ainda bem, pois chegar no ponto em que cheguei e estar vivo é, simplesmente, um milagre.
Cervejinha de dia, o começo
Comecei a beber lá pelos 23 anos, nos fins de semana. Uma cervejinha, durante o dia. Um uisquinho á noite, para relaxar. Um vinhozinho antes de fazer sexo, que ficava mais gostoso.
Gradualmente, o álcool foi insinuando-se por meu corpo e mente, sempre como aditivo de qualquer coisa que eu pretendesse fazer.
Alcoolizado, eu me sentia o dono do mundo. Em casa, todos viviam em sobressalto: nunca havia dinheiro para as despesas, nem carinho para a mulher e os filhos. Eu me casara como o álcool.
À minha mulher restava apenas lamentar-se e chorar. Eu não dava a mÃnima. Aliás, as choradeiras dela contribuÃam para que eu me aborrecesse e cometesse mais desatinos.
Por essa época, alguns amigos me alertaram: ‘Você está indo longe demais!’. Eu esbravejava: ‘Bebo com meu dinheiro e ninguém tem nada a ver com isso’. Com o tempo, essa sensação de poder, transformou-se em desespero: queria parar, mas não conseguia. ‘Não vou mais gastar meu salário pelos bares’, prometia.
O palhaço, o porco e o leão
E gastava. ‘Não vou mais sair de casa aos domingos à noite e só aparecer na manhã seguinte’, jurava. E não cumpria. Afundava-me cada vez mais no copo e na lama.
Engraçado esse negócio de afundar na lama. É meio batido. Mas tem a ver, pois o alcoólatra que só abandona a bebida quando está perto da morte, passa, invariavelmente, por três fases: a do palhaço, a do leão e a do porco.
Muitas vezes fui agressivo e encostei o cano de um 38 na cabeça de pacatos motoristas de táxi, simplesmente porque eles se recusavam a me levar por apenas dois quarteirões. Era o leão em cena.
Quantas vezes fui motivo de risos: não é gozado ziguezaguear pela rua e bater, de repente, com a cara num poste? Era o palhaço em ação. Pouco antes de conhecer AA eu usava a mesma roupa há meses, não me barbeava e nem tomava banho. Não é coisa de porco?
Em apenas cinco anos, dos 25 aos 30, o álcool me fez passar uma noite de terror num cubÃculo de manicômio e a humilhação de dormir na rua. Aos 34 anos, o álcool dirigia totalmente a minha vida.
Todo aquele orgulho de ser poeta, letrista premiado em festivais de música, jornalista conhecido — tudo isso terminou jogado nos cantos mais imundos dos botecos das zonas de baixo meretrÃcio.
O que sobrou de mim, aos 36 anos, naquele 6 de abril de 1976, foi um bêbado trôpego, equilibrando-se nas calçadas do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Sem rumo. Ou melhor: em direção à loucura e à morte.
Jornada para o inferno
Alcoólatra é uma palavra dura. Mas se encaixa justo em quem não resiste a mais um gole, depois de ter tomado o primeiro — inÃcio de uma longa jornada para o inferno.
Em AA aprendi que alcoólatra, entre tantas definições, é especialmente aquele que tem a capacidade de absorver grandes quantidades de álcool, sem, no inÃcio, ficar bêbado.
Sobre isso há uma historinha contada por Donald M. Lazo, um estudioso de dependência quÃmica, em seu livro Alcoolismo:o que você precisa saber.
Ele conta que cinco jovens foram a uma festa e beberam muito. No final, todos saÃram cambaleando, menos um. Qual deles seria um alcoólatra em potencial? ‘Esse um’, responde Donald.
AA tem me ensinado bastante sobre alcoolismo. Lá, são ditos alguns slogans que, se praticados, tornam a abstinência ao álcool menos sofrida: ‘Evite o primeiro gole’; ‘Vá devagar, mas vá’; ‘Viva e deixe viver’.
Em AA aprendi a perder o orgulho, a pedir socorro quando necessário, a não estar só. E, principalmente, a não mentir para mim mesmo.
Hoje, alguns amigos, meus filhos, que pensava ter perdido para sempre, reaproximaram-se de mim. Não percebo mais medo nem rancor nos olhos deles. Só mágoa, um sentimento cujo mecanismo funciona mais ou menos como quando a gente se corta: a ferida sara, mas ficam as cicatrizes.
O bom agora é que todos os que convivem comigo e sabem de meu alcoolismo, me animam, vibram com cada dia de sobriedade que conquisto. E isso me dá forças para não voltar ao copo. Foi mesmo um milagre. Ou um lance de sorte, sei lá. Qualquer que seja a causa, parar, em casos iguais ao meu, é muito difÃcil.
Para ter uma idéia, foram necessários quatro anos de abstinência para que me sentisse em condições de participar de reuniões sociais. E somente depois de cinco anos sóbrio consegui, de novo, meu primeiro trabalho. De qualquer forma, é possÃvel parar.
Basta uma certa disposição, ainda que débil. Algo como: ‘Puxa, eu gostaria de parar de beber, mas de que jeito?’. E mesmo que esse desejo se transforme em dúvida e desemboque num gole, não faz mal. É essa vontadezinha que tece um fio de esperança.
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FICO ALEGRE EM SABER QUE UMA FORÇA SUPERIOR QUE NA MINHA CONSEPÇÃO E DEUS, FEZ VC VER UM NOVO CAMINHO E QUE OS 12 PASSOS
FEZ UM NOVO HOMEM EM
VC
Olá, William
Obrigado por suas palavras carinhosas. Devo a Deus, sim, e aos 12 Passos, o que hoje sou. Obrigado pela visita ao meu blog. Volte sempre que puder.
Abraço fraternal.
tenho 26 anos e sou alcoolatra, ainda penso assim: dá pra acreditar?! caramba, eu não posso oque eles(meus amigos podem) frequentei o AA alguns dias, não bebo faz 11 meses e 4 dias, eu ainda estou no primeiro passo, e só Deus e vocÊs que passam por isso sabem o quanto é dificil. porque é fácil ser dificil no alcoolismo. isso engana. Parabéns por seu depoimento, me senti melhor em meio a um dia esquisito! fica com Deus e força sempre.
Olá, Paulo
A gente se sente bem, vendo que já passou algum tempo sem tomar o primeiro gole (que é fatal). Mas é bom lembrar que o dia é hoje; que , na verdade, temos apenas 24 horas de abstinência.
Não digo sobriedade porque é muito difÃcil alcançá-la. Para iso, é preciso ler entender os 12 Passos e tentar praticá-los, um a um. É importante enfatizar também que nosso remédio são as reuniões. Procure não faltar nunca, por mais que alguma ou outra lhe pareça chata. Meu padrinho costumava me dizer que a melhor reunião é sempre a próxima.
Obrigado pela visita. Volte sempre. No meu blog você sempre terá uma palavra de incentivo e carinho.
Abraços
Oi João, muito legal a sua coragem de contar o seu problema.
Também sou alcoólatra e sou recém ingressa no AA, infelizmente dei uns escorregões mas sei que se me dedicar ao programa com honestidade vencerei esse vÃcio.Obrigada e boas 24hs
Fiquei comovido com essa história, bebo de vez enquanto mas quando bebo não quero mas parar, e na maioria das vezes acabo fazendo uma besteira ou outra o que me deixa no outro dia arrasado, pois nem sei o que estava fazendo e com isso ganhei uma depressão que esta me matando a cada dia, perdi totalmente a vontade de viver as lembranças do passado me atormentam, a dor maior que já sentir na vida é quando alguém chega para mim e me diz: você se lembra o papelão de ontem à noite?, cara aà eu desço para o inferno uma tristeza tremenda que me dá vontade de tomar um veneno letal ou me enterrar num buraco e nunca mas saÃ, o pior de tudo isso é que a cidade que moro é tão pequena que todo mundo se conhece, e você não pode mudar o que está feito é assustador e me deixa ainda mais deprimido sem poder fugi,r ai o que faço é me esconder dentro de casa e com isso ganho que nunca tive uma vida profissional aos 31 anos, pois não tenho coragem de encarar as pessoas o que eu quero é envelhecer 100 anos em dia e alcançar a tão esperada morte natural e sem dor só assim me liberto dessa tristeza sem fim.
Nunca imaginei que um dia iria viver carregando tanto medo na vida, e medo de mim. Os meus erros são insuportáveis e irreparáveis, promessas que faço em vão, cheguei a conclusão de que nasci para ser detestada, viver na solidão, na escuridão, eu não mereço nunca a filha que tenho, o marido que nem sei se ainda tenho e os pais que tenho, eu deveria ter nascido e morrido. Cansei das loucuras, promessas, querer mostrar e ser o que não sou enfim cansei, esgotei, chega de mim.Não tenho motivos para fazer esta merda, não faço porque gosto ou acho o máximo, eu só quero saber o nome da minha doença miserável e ordinária que conseguiu me destruir e acabar comigo. Não vou mais implorar a DEUS, ele é muito ocupado com coisas importantes e nçao com uma ordinária como eu, quero queimar viva parar tudo de mal que fiz para Carol, Gilberto e Papai e mamãe, agora vou me policiar bem porque eu já decidi o que vou fazer comigo se eu fizer mais uma merda, só uma.Só quero que todos me desculpem, nunca gostei de bebidas alcoolicas eu não sei o que é esta doença.