Turismo sem volta
A vida a bordo das naus que singravam o Atlântico (então conhecido como Mar das Tormentas) na época dos Descobrimentos, era cruel. Em parte porque os marujos, quase todos imberbes e recrutados à força, não estavam preparados para enfrentar as odisséias marítimas.
“…por haver sempre mais dos maus que dos bons, principalmente em gente da Índia onde vem toda a nata da pobreza e ruindade e é comum nestes reinos dizerem, a quem tem um filho travesso, que o mande à Índia dos quais está povoada…”, comentava Lobo Vaz de Sampaio, capitão-mor da Índia, em 1527.
De fato, eram homens rudes, iletrados, que se lançavam a aventuras, iludidos pelo sonho da riqueza ou fama. Parece incrível, mas a maioria não distinguia o lado direito do esquerdo.
A solução adotada pelos capitães dos navios foi colocar, de um lado, um molho de cebola e, do outro, um de alho. E assim, eles comandavam sua tripulação, ora gritando “virar a cebola” ou “virar a alho”.
“….Como podes tu ser piloto de uma nau, se nunca entraste nela, nem sabes que coisa é balestilha (instrumento de navegação) nem astrolábio ? — Não repare vossa senhoria nisso – respondeu ele, porque nas naus da Índia não há mister pilotos; sempre ouvi dizer que Deus as leva e Deus as traz “, revela um autor anônimo do século 17, no livro A arte de furtar.
Fome, sede e doenças
Aos grumetes misturavam-se os passageiros que queriam conhecer a todo custo os novos horizontes do Ocidente, em especial o Brasil. Muitos nem sabiam ao certo o que levar como bagagem, conforme relata o mesmo Antônio Barreiros.
“…e embarcavam como se não partissem para mais longe do que uma légua de Lisboa, levando consigo apenas uma camisa e dois pães grandes na mão e transportando um queijo e um frasco de compota, sem qualquer outro tipo de provisões….”.
Por vezes passavam só a bolachas, parcialmente roídas por ratazanas e bebiam água insalubre. Resultado: fome, sede e doenças que iam do escorbuto às epidemias de pestes, principalmente a bubônica.
Uma carta do historiador Lobo de Azevedo a el-rei D. João descreve bem esse trágico cenário:
..”os alimentos provêm-se de chacinas podres, bacalhau corrupto, biscoito mascavado, vinho azedo, azeite borra, porque acham tudo isso mais barato, na compra, e sai-lhes mais caro no efeito porque adoecem todos os passageiros, morre a metade, malogra-se a viagem, perde-se tudo, porque foram providos com unhas de fome..
…Manda-as sua majestade prover para três meses …encolhem os provedores as mãos para encher as unhas e dão provimento para três semanas. Eis que na segunda semana já falta a água e na terceira já não há pão. A cama é a que acham pelas tábuas ou calabres do navio…”.
Duro que dói. Mas bem mais dolorosas eram as péssimas condições sanitárias. Eles se amontoavam por cima dos fardos, barris de cargas e animais vivos. Vomitavam e faziam as suas necessidades uns sobre os outros ou em baldes pendurados nos cascos dos navios. O papel higiênico era uma corda com a ponta desfiada, usada por todos e lavada pela água do mar.
A sangue frio
Médicos, nem sempre. A armada de Cabral, por exemplo, levava apenas o físico e cirurgião João Faras e um médico-barbeiro. O primeiro preocupava-se mais com o sol e as estrelas do céu das terras de Vera Cruz do que com os doentes.
O médico-barbeiro era uma mestre na arte do faz-de-tudo: além de cortar cabelos e barbas, tratava de feridas, fazia sangrias, arrancava dentes. Mas sempre na base do “vou experimentar para ver no que vai dar”. Os medicamentos eram raros, quase todos à base de beberagens. O mais utilizado era a teriaga, remédio contra mordida de qualquer animal venenoso.
Para prevenir-se dos males de seus pacientes, os médicos usavam uma máscara de nariz comprido, onde eram colocadas especiarias que eliminavam os odores insuportáveis de gangrenas. Mais pareciam fantásticas figuras saídas de um filme de ficção.
“… muito trabalho pela muita gente que neste Galeão adoeceu com as calmarias da Guiné de que eu não fiquei livre pois estive no ultimo da vida com 10 sangrias e dois meses de doença, e dela me morreram 53 pessoas e muitas senhor ao desamparo por falta de cura, porque neste galeão se não meteu cirurgião e o barbeiro, que nele meteram foi um soldado que estava preso para ir na viagem que nem sabe sangrar, nem conhece medicina nenhuma da botica…”, reclamava o cronista Antônio Barreiros, em 1650.
Quando havia médicos a bordo, as técnicas empregadas por eles numa cirurgia restringiam-se à amputação dos membros lesados. Aplicava-se ao braço ou à perna um garrote bem apertado para diminuir a hemorragia e o osso era serrado. Por fim, introduzia-se o coto no interior de uma bexiga de boi ou de porco, bem apertada, em torno do membro amputado. Não se usavam anestésicos. Um suplício!
Barbeiros habilidosos
O consolo para alguns dos mutilados era a mão artificial criada por Paré, famoso cirurgião da época. Mas o implante na maioria das vezes estava sujeito à rejeição.
Historiadores acreditam que a carência médica devia-se a dois principais fatores: 1) a ignorância própria da época acerca das doenças e seus tratamentos; 2) a falta de motivação na prática médica que era mal remunerada e a existência de uma sociedade fortemente moldada pela religião e também. A propósito, o capitão-mor Cristóvão Ferrão aconselhava ao Conselho Ultramarino, em 1670.
“….Os maus sucessos que experimentarão muitas vezes nas naus, nascem das ofensas que nelas se fazem a Deus; e assim vos ordenamos que tenhais particular cuidado de as evitar no decurso da navegação..”.
Mas, justiça seja feita, a cada expedição marítima Portugal tomava-se mais consciente do valor do médico naval, e, em muitas delas, embarcaram cirurgiões de renome e barbeiros habilidosos.
Para além de todo aquele sofrimento, existia ainda o perigo das condições climáticas, que iam desde um frio insuportável, até um calor abrasador.
Os fortes temporais quase sempre provocavam naufrágios. Calcula-se que 40% dos navios da época nunca chegaram ao porto de destino – Cabral regressou com metade de seus 1200 homens em sete dos 13 barcos de sua frota.
Portanto, para todos, mas principalmente para os turistas era uma viagem infernal. Muitas vezes sem volta.










O que movia essas pessoas na verdade era a cobiça, existia muitas lendas que falavam de riquezas,lucros fáceis no além mar. Na verdade essas expedições só eram vantajosas (no caso de Portugal) à coroa portuguesa.
A história está aí para mostrar que o povo é sempre um instrumento da cobiça de seus governantes e também de suas próprias.
valeu João,
abraço
Oi, Beth
Obrigado por visitar meu blog. Você tem toda a razão. A cobiça era o motor que levava àquelas aventuras perigosas.
Abs